Pelo brega, pelo bege e por tudo que nos faz feliz

quinta-feira, março 14, 2013 Vivian Loreti 6 Comments



    "O que ela pensa que está fazendo?" foi a primeira sentença de uma de minhas amigas ao chegarmos na festa de aniversário do Paulinho. Não sabia quem era "ela" e o motivo da indignação da minha amiga, mas os meus olhos já treinados encontraram rapidamente o sujeito da frase sobressaltada. 
    A moça estaria até bonita, se não fosse o excesso de produção. Cabelos longos caídos em um vestido de estampa floral em cores quentes e um mini-bolero tigrado. Cobria suas pernas uma meia-calça escura que ora simulava o preto, ora parecia roxa. Acertou apenas no sapato. Alto e bonito. Mas a moça era charmosa, apesar de tudo. Tinha um je ne sais quoi que podia ser traduzido em atitude. 
    Ainda que com todos esses argumentos a favor da menina, minha amiga não perdoava sua superprodução. Breguite virou seu apelido - uma mistura infame de brega com Brigite, que era seu nome. Risinhos e cochichos quando ela passava. A menina corou pela primeira vez quando deixou-se ouvir breguite em voz alta, na frente do rapaz de olhos cor de oliva. O apelido pegou. Todos riram. Menos Brigite.
    A minha amiga se mudou. Crescemos. As histórias foram se diversificando, os caminhos aparecendo e o destino fazendo a sua parte. Nunca mais a vi - nem minha amiga e nem Breguite. Cerca de alguns meses atrás saí de viagem com meus pais para uma praia deliciosa da Costa Verde fluminense. O lugar era incrível, não há palavras suficientes pra descrever as paisagens que se desdobravam pelo trajeto. Minha irmã e eu éramos muito grudadas. Especialmente naqueles tempos em que nada mais importava. Lá pelas tantas, em meio aquela praia maravilhosa, a Olivia se engasgou com a água de coco que estava tomando há algumas horas. Nem sei se havia mais água naquele coco ou se ela estava apenas fazendo pose. Perguntei se estava tudo bem e ela apontou pra uma menina sentada a alguns metros da nossa barraca.
    Era uma jovem muito bonita, com grandes olhos azuis e cabelo liso de dar inveja. "E eu com receio de sair de casa!", disse minha irmã. Terminou a frase com "Rá, e nem se envergonha de tomar um sorvete desse tamanho! Dá pra entender...". Virei os olhos pra moça que se deliciava com um gigante sorvete de creme com calda de chocolate. Era gordinha sim e não tinha o menor grilo com isso. Vestia um biquíni chamativo, sacudia o cabelo de comercial de shampoo enquanto conversava com caras lindos à altura da beleza dela. Não, não via nada de errado com aquela cena. Uma moça extremamente bonita, coberta de atitude e sem encucar com coisas tão banais quanto o pensamento dos outros sobre como deveria parecer ou como deveria se sentir sobre seu corpo. Estava feliz, tão radiante que se exibia, se divertia. E eu, no alto dos meus 42 kg nem sequer levantava com uma certa vergonha de prováveis marcas, celulites ou dobrinhas. Coitada... de mim!
    "Ela era bonita, mas..." - Por que mas? Parecia que Olivia falava de uma tevê com algum tipo de avaria. É tela plana, mas sai o som. Ou celular que não funciona. É dual chip, mas não liga. Por que mas? É bonita. Ponto. Sem vírgula, sem mas. 
    Eu mesma sou alvo de críticas constantes. Isso porque uma de minhas vestimentas favoritas é um sutiã de cor bege, que me cai muito bem. Pena que meus amigos não pensem assim. É só aparecer alguma pontinha da minha melhor peça que todos caem no riso e começam as piadinhas sem graça. O mito de que não se pode usar lingeries beges continua rondando a cabeça de alguns marmanjos por aí. Que besteira! Saibamos aproveitar o conteúdo em vez de dar tanto poder ao embrulho, minha gente. Sob o risco de brochadas beges.
    Balanças, combinações, cores ou outras trivialidades não influenciam na personalidade. E mais importante ainda, não têm relação alguma com caráter. Deixe ela ser gordinha. Deixe que seja brega. O que te deixa insegura é a própria gama de pré-conceitos colecionados. Liberte-se da escravidão de ser o que esperam. Brega, bege ou gordinha. Seja linda começando por ser o que é de verdade. Seja o que te faz bem. Permita-se a felicidade.




    
    Créditos da imagem

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6 comentários:

  1. Que legal o texto! Hoje em dia criam tantos estereótipos. Querem tanto ser diferentes que acabam sendo iguais. Concordo contigo: o que importa é ser você mesmo. Amei♥
    Beijos, Vivian.

    http://menina-do-sol.blogspot.com.br/

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  2. Ahh menina, você sempre se superando ein! hahahaha'

    Essa coisa do sutiã bege me lembra umas roupas que meu irmão vestia, que todo mundo ria da cara dele. Acontece que meu irmão estava crescendo rápido demais, e as roupas não, por isso as camisas favoritas dele sempre estavam pequenas, e ele sempre continuava usando. hahaha.
    Soubesse tinha falado para ele continuar usando as roupas e sendo feliz \o/

    Como pode uma pessoa se envergonhar de tomar um sorvete enorme? Quem dera todo mundo tivesse saúde suficiente pra isso. E pior que as pessoas realmente falam isso, se você come demais, aí pode se preparar para ouvir. O negocio é não dar confiança e ser feliz

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  3. mas nem sempre ser do nosso jeito nos faz bem, as vezes incomoda.
    o que quer dizer que temos que nos permitir mais.

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  4. Realmente, o nosso reflexo da aparência externa acaba sendo interpretada por diversas pessoas. Como você disse, cada um veste e age do modo que bem entender,que se julga melhor. A opinião alheia acaba sendo um obstáculo para expormos nossa verdadeira personalidade.

    clandestina-a-bordo.blogspot.com

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  5. Vivian,
    voltei!
    Estou super empolgada por que voltei e estou me deparando com vários textos excelente - como o teu!
    Amei a forma como você concluiu seu texto, e concordo com cada palavra.
    Deixa ser, deixa estar, deixa pensar, deixa falar - coisa boa é ser quem realmente se é.


    Um beijo,
    Jhosy

    http://meninamsicaeflor.blogspot.com.br/

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