1 tema, 2 ideias

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A Soraya do blog Meu Meio Devaneio e eu orgulhosamente apresentamos o projeto 1 tema, 2 ideias. Como funciona? É assim: nós escolhemos um tema aleatório (ou não) e escrevemos dois textos distintos (ou não também) sobre o mesmo assunto. O interessante deste projeto, é a diferença das visões de mundo ou a semelhança - isso vai se mostrando com o passar do tempo.
Essa coluna vai ao ar quinzenalmente.

O tema dessa semana é (e não poderia deixar de ser) Dia dos Namorados.

Breve conto da visão da moça sobre o Dia dos Namorados



Ela achava a maior bobagem. Disseram-me, certa vez, que seu discurso anual defendia a data como uma desculpa para gastar dinheiro e esperar de algo real um conto de fadas que só se vê em literatura infantil. Não gostava do Dia dos Namorados e nada que eu fizesse poderia mudar seu pensamento.

Preferia passar o doze de junho sozinha. Um dia inteiramente dedicado à seu próprio prazer, sua felicidade. Sua atenção - diagramadamente dividida - tinha, agora, apenas um foco. Decidiu gastar consigo aquilo que a data previa gastar com o próximo. E, definitivamente, estava certa de que esta foi sua melhor escolha.

Ao ouvir as comédias românticas das suas amigas, sorria, apenas. Não queria ouvir sobre coisas que ela nem sequer gostava. Os programas de auditório, com fundo de coração e declarações-surpresa, enchiam-na de nojinho empático. Quanta bobagem!, murmurava enquanto folheava o livro de cabeceira.

Chegou atrasada mais uma vez. Por ter escolhido Humanas, achava um saco ter que estudar Exatas dentro do próprio curso. Precisou sair da sala para atender uma chamada e, ao voltar, lá estava ele, no lugar que havia sentado. Imediatamente ganhou o seu ódio. Quanta ousadia!, era possível ouvi-la pensar. Juntou cadernos e bolsa e desceu, fugindo pra sempre daquela aula maldita. E, para seu azar, ele foi atrás. Comentou o quanto detestava Estatística, o quanto era difícil estar em um estado diferente e o quanto era esquisito viver tão longe de seus pais. Elogiou seu vestido, seu corte de cabelo e as cores da tatuagem. Ela sorria, tímida, ao som das borboletas estomacais. Era tarde demais.

Começaram a namorar no dia nove de abril. Ela estava irremediavelmente apaixonada! Falavam sobre viagens, música e política. Gargalhavam juntos, choravam separados. Ele levou a moça para conhecer os seus pais, sua avó, seus tios. Ela apresentou todos os seus amigos, seus costumes, sua vida. 

Em uma manhã de outono, saiu à procura de um presente. Um presente de Dia dos Namorados. Quem diria? Olhávamos torto, provavelmente nos perguntando o que poderia tê-la mudado tanto. O que ninguém sabia, entretanto, é que ela nada havia mudado. Pendurado em uma fita de cetim, dentro do embrulho, estava um bilhete escrito à mão:

Nunca gostei de comemorações. Talvez pela minha raiz tímida ou ansiosa por demais, não sei. O fato é que fico desconcertada em aniversários, dia das mães, dia da árvore ou o que mais precisar de uma interação um pouco maior do que meus instintos retraídos me deixam ir. 

Mas, com você, eu descobri que posso ser mais. Que posso ir além e ser muito maior do que o sentimentalismo barato que me arrepiava. Com você, descobri que ser parceiro é muito mais do que ser namorado. Descobri que Dia dos Namorados não é uma data inventada pelas companhias de cartão de crédito pra tirar cada vez mais o nosso suado dinheiro. Pude enxergar que é um dia especial, onde - em um mundo escasso de amor - podemos comemorar que ainda temos muito amor pra doar e que somos retribuídos também. E que não há vergonha alguma nisso. 

Vi que ser solteiro é uma delícia e que às vezes sinto saudade dessa época divertida. Mas que eu não conseguiria mais viver sem esse alguém que se preocupa se estou com febre, se estou comendo besteira demais, bebendo demais, vendo tv demais ou lendo de menos. Não conseguiria viver sem o abraço mais apertado que já dei. Sem as cócegas quando quero falar sério. Sem a conchinha. Sem os melhores conselhos, os melhores esporros, os melhores adeus. E é verdade que eu poderia estar em qualquer lugar agora, com qualquer um. Mas é com você que escolhi estar. Dentro do nosso próprio felizes para sempre.

Feliz Dia dos Namorados.

- Ser solteiro é uma delícia - me disse a moça. - Mas apaixonar-se é ainda melhor.

***


Vamos agora conferir o texto da Soraya? Então, vem comigo!




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9 comentários:

  1. Não gosto do dia dos namorados, adorei o texto! bjs

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  2. Awwwn, que lindo! Acho que todo mundo tem um pouco desse ceticismo, mas no fundo, no fundo mesmo, acredita.

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  3. Muito bom. Gostei. Até vi uma expressão que não sei o significado. Mas, vou tentar aprender. Gostei, das duas visões.Ah! Outra dica de filme..O Libertino - com Jhon Deep (acho que é assim que se escreve).Excelente filme...

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    1. Ah esse filme eu já vi, muito bom! Eu adoro os filmes do Johnny Depp :)
      Beijão!

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  4. Sou dessas que detesta qualquer data comemorativa! Se eu pudesse bania todas elas do calendário! Não gosto nem de aniversário. Acho isso tudo muito chato :)

    Gostei de ler o outro texto também, projeto muito criativo ^^

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