Crônicas de um sujeito perfeito

quarta-feira, maio 22, 2013 Vivian Loreti 6 Comments



Ele sorria sorrisos de desbancar qualquer Príncipe Encantado. Falava sobre amor como o Chico jamais conseguiria. Sua felicidade desenhava em seu rosto covinhas hipnotizantes e as veias da sua testa se tornavam um pouco mais salientes quando ele ficava nervoso. Perfil de atleta, coração de poeta, cérebro de Einstein.

Vai ser um rapaz muito bonito, diziam as tias durante apertões intermináveis de bochecha. Era o número um da classe. De todas as classes. Na igreja, se sentava diante do padre e só abria os olhos depois da última alma se despedir. Capaz de contar nos dedos quantas vezes já se atrasou, nunca discordou sequer de sua mãe. Um menino de ouro, suspiravam todas as moças do bairro.

Formou-se em medicina, ganhou mimos e congratulações da família. Era o orgulho do pai, que, nas mesas de bar, ostentava os ganhos e feitos do bem-sucedido filhão. Todo domingo levava uma rosa vermelha para o almoço com a sua avó. Um beijão na testa, um abraço apertado e um tapinha na bunda - estava em casa com os seus amados velhinhos.

Não dispensava uma roda de amigos. Não pensava duas vezes para abrir a carteira. Nunca foi um sujeito egoísta - sentia-se verdadeiramente bem ao compartilhar seus bens e, mais ainda, seus conhecimentos. Esse sim é o cara!, diziam os amigos.

Suicidou-se no dia nove de junho de dois mil e onze. Uma manhã de outono daquelas mais agradáveis, em um dia em que ninguém pensa que vai morrer. Deixou um pouco de cada coisa que possuía para familiares e amigos mais íntimos. Guardava uma caixa no fundo do armário com recortes de tudo aquilo que gostaria de ser e reservou somente para os seus avós. A boa senhora passou mal e, tonta, tentou não desmaiar quando o marido, trêmulo, emocionado, retirava de dentro da caixa as fotografias do falecido neto. Nenhuma delas figurava rostos bonitos, rios de dinheiro e nem sequer a tão suada medicina. Choraram, entristecidos. Na escrivaninha, um bilhete simples, em caneta trêmula:

- Me despeço, enfim, da perfeição.



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6 comentários:

  1. Que triste!!! e bonito ao mesmo tempo bjs

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  2. Logo nas primeiras linhas pensei: "sujeito perfeito mesmo". Mas levei um susto quanto li o último paragrafo. Não sei onde li, que a perfeição é um tédio, acho que foi em um quote de Lola e o garoto da casa ao lado ^^

    Tive que ler duas vezes o texto, achei bonito, mas meio triste, coitado do rapaz! Bom, acho que a gente acho que perfeição é igual felicidade, o sujeito podia ser perfeito para os outros, mas será que era perfeição que ele realmente queria?

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  3. triste e bonito como disse a juliana.
    o final foi um pouco chocante....perfeição te faz sofrer, pq vc nao pode tentar ser perfeito...a gente sempre erra em algo e isso acaba nos frustando ou frustando os outros.

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  4. Eu diria, como digo de vários dos teus textos: Perfeito.
    Contraditório? Não.
    É uma pena que muitas vez as pessoas - e, nelas me incluo - percam mais tempo na busca pela perfeição, do que pela completude que há muitas vezes nas pequenezas.

    Ótima reflexão Vivian, parabéns.

    Um beijo!

    http://meninamsicaeflor.blogspot.com.br/

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  5. Adorei o texto! Você tem uma maneira de escrever cativante! Faz-nos refletir bastante. Parabéns :)

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  6. Achei seu blog na cmm do Google + e achei tão NHAC *-* haha bela crônica me fez ter vontade de ler as outras :)

    http://www.medusaviking.com

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