1 tema, 2 ideias: Nostalgia

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Tenho vinte e poucos anos. Isso significa que sou filha dos anos 80 — os amados e extravagantes anos 80. Minha infância foi do final dos anos 80 ao final dos anos 90. Época boa de se viver! O mundo, já dizia minha mãe, era diferente. A vida era mais calma, as crianças corriam nas ruas até o cair da noite, os vizinhos se sentavam na frente de suas casas em banquinhos, os mais corajosos nas calçadas. Pique-pega, Pique-alto, Pique-esconde, Babalu, Pipoca, Meus Pintinhos Venham Cá. Nessa infância se sujar era lei, correr era regra, se machucar doía e era bom pra cacete! Canela arranhada era sinal de felicidade, uma cicatriz de guerra. Nós, guerreiros pré-adolescentes, só queríamos ser os donos da rua, donos do mais alto galho de árvore, donos dos gols mais bonitos, donos das bonecas com melhor penteado (cabelos estes que já estavam duros, de tanto hidrocor e água com sabão).

Uma das minhas melhores amigas na época tinha uma Barbie vinda da Alemanha, que não podia nunca sair da caixa. Onde já se viu, brinquedo que não se brinca? Vários anos se passaram e, hoje, vejo inúmeras crianças com brinquedos que não se brincam. Crianças que trocam os piques pelo controle de um videogame. Crianças que trocam um final de tarde no campinho por um dia inteiro dentro de casa. E por vontade própria. A minha infância era melhor? Quem viveu ou vive infância tipo a minha vai jurar que sim, a nossa era muito melhor, vivíamos mais. Quem vive a "infância moderna" nos chamaria de antiquados e poderia apostar que essa é a melhor fase de todas.

Acontece que o nosso mundo não é mais o mesmo. Vivenciamos a evolução. E não devemos tomar "evolução" por "melhoria". A sociedade evoluiu, aceitemos de uma vez por todas. E com ela, todo o resto foi obrigado a se transformar também. Antes, o pirata que pulava quando espetado com a espada era o melhor brinquedo do mundo. "Estátua" animava qualquer roda de desconhecidos que eu estivesse e, durante muito tempo, Escravos de Jó desafiou meus nervos e habilidades motoras. Queda de luz era sinônimo de vizinho conversando no portão. Infelizmente, a venda dos piratas diminuiu (que saudade), Estátua virou "coisa de criança" (frase vinda da boca de um ser de 9 anos) e Escravos de Jó já se tornou um hit dos antigos. Entretanto, criaram jogos que estimulam o raciocínio lógico, tapetes que trabalham a coordenação motora e programas de tv chatos, mas que encantam a criançada que à eles têm acesso. E a palavra é essa, mesmo. Acesso. Antes não tínhamos tvs de plasma, 3D então era coisa futurista! O nosso mundo produz e evolui, as crianças já não acham tanta graça em correr atrás de piques. Elas têm é acesso! Cinemas, parques, videogames, programas de tv, internet. Só depende da idade, às vezes nem isso. As crianças hoje têm o conhecimento que antes não tínhamos. E se tivéssemos, como seria?

Saudosa época da infância. Tudo era tão simples: meus maiores planos eram convencer o meu pai a me dar uma casa na árvore, minha mãe a me dar a boneca que mamava mamadeira e os meus amigos a me deixarem só me esconder em vez de estar com o pique! Hoje, com o ganho de mais alguns anos vieram as responsabilidades, o conhecimento, a tecnologia e eu já me tornei, quem diria, adulta. Infância boa é boa por isso: deixa saudades, resgata lembranças e nos faz sorrir, não importa como —  rodando um peão descalço na rua ou apertando botões de um controle sem fio de um videogame de última geração. Infância boa é aquela que deixa marcas de sorrisos largos e olhos brilhantes — mesmo depois dos vinte e poucos.

***

A Soraya do blog Meu Meio Devaneio e eu orgulhosamente apresentamos o projeto 1 tema, 2 ideias. Como funciona? É assim: nós escolhemos um tema aleatório (ou não) e escrevemos dois textos distintos (ou não também) sobre o mesmo assunto. O interessante deste projeto é a diferença das visões de mundo ou a semelhança - isso vai se mostrando com o passar do tempo.
Essa coluna vai ao ar quinzenalmente.


Vamos conferir o texto da Soraya? Então vem comigo!



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5 comentários:

  1. Sempre me surpreendo como conseguimos ter visões distintas e ao mesmo tempo parecidas sobre o tema. Esse talvez seja o ponto que mais me anima no projeto: estamos interligadas, embora sejamos pessoas com vivências distintas.
    Escrevi diferente, mas me identifiquei absurdamente com seu texto!
    Beijos!!

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    1. Disse tudo, Sosô!
      E eu adorei o seu texto :)
      Beijão

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  2. Vivia, adorei o teu texto!
    Muito muito muito mesmo!
    Assim, não exatamente por que vivi algo parecido, mas meu marido viveu. E você não tem ideia de quantas vezes eu faço ele me contar sobre a infância dele na fazendo onde vivia.
    Ai, eu me emociono tanto! E de certa forma, tenho um pouco de 'inveja', assumo, rs.
    Minha infância foi repleta de viagens, livros, tecnologia desde cedo. Era um tanto exagerado. Desde cedo a cobrança nos estudo era acirrada demais.
    Sinceramente a lembrança mais agradável que tenho são os livros. Os vários livros que sempre houveram. Minhas mesadas eram gastas em Sebos, e o dia de ir comprar livros era sempre o meu preferido.
    Eu e meus irmãos quando brincávamos era sempre de desmontar os carrinhos que eles ganhavam, rs

    Um beijo,
    e parabéns pelo texto e pelo novo projeto!
    Jhosy

    http://meninamsicaeflor.blogspot.com.br/

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    1. Eu sempre fui muito de rua, de inventar brinquedos e brincadeiras. Então, ver que as crianças de hoje passam mais tempo no pc me deu muito o que pensar! Mas não existe - acredito eu - "a melhor infância". Acho que a melhor infância é aquela em que se é feliz e pronto!
      Obrigada e fico feliz que vc tenha gostado, Jhosy!!!
      Beijão

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  3. Minha infância não teve muito de corrida na rua, de cair e machucar os joelhos. Mas teve bastante pique-isso, pique-aquilo, as vezes dentro de casa mesmo. A gente quebrava as coisas da minha mãe e ela morria de raiva! kkkk' Minha infancia foi uma mistura de infancia do passado com infancia do presente, a gente jogava video game, mas brincava de outras coisas também.
    Bom, concordo com você, a melhor infância é aquela que deixa boas lembranças, um sorriso. O problema começa quando a criança amadurece cedo demais, na minha opinião.

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