1 tema, 2 ideias

quinta-feira, junho 27, 2013 Vivian Loreti 10 Comments



A Soraya do blog Meu Meio Devaneio e eu orgulhosamente apresentamos o projeto 1 tema, 2 ideias. Como funciona? É assim: nós escolhemos um tema aleatório (ou não) e escrevemos dois textos distintos (ou não também) sobre o mesmo assunto. O interessante deste projeto é a diferença das visões de mundo ou a semelhança - isso vai se mostrando com o passar do tempo.
Essa coluna vai ao ar quinzenalmente.

 

                                                                                ***
Fictício, mas real



- Estou muito assustada, com muitos pesadelos durante a noite que têm me assombrado também em plena luz do dia. Mal consigo me concentrar no trabalho.

- Pesadelos de que tipo?

Silêncio.

- Melissa, você disse que anda com muitos pesadelos. Vamos nos aprofundar neste assunto? Me conte sobre os pesadelos.

- Desculpa, doutor, eu só preciso de um remédio que me faça dormir. Só isso. Me ajude, por favor.

- Veja bem, Melissa, eu não posso mais receitar soníferos para você, especialmente porque não consigo entender de onde vem a sua insônia. Preciso que você confie em mim e permita que eu te ajude. Fale um pouco sobre esses pesadelos... teriam algo a ver com a gravidez?

A moça assentiu com a cabeça e um longo silêncio pairou sobre a sala, enquanto ele rabiscava freneticamente o caderno à mesa.

- Clarissa.

- Desculpe, quem é Clarissa?

- Minha filha. É menina, Clarissa.

- E é com a Clarissa que você costuma sonhar?

- A Clarissa está grande, quatro ou cinco anos e ele entra em casa depois do trabalho. Está suado, com uma baguete em mãos e a sacola de presente. É aniversário da minha mãe...

- Continue.

...

- Continue, Melissa. Quem é o homem que acaba de chegar?

- Eu pego a Clarissa, mas não consigo carregá-la comigo. Puxo, mas ela não sai do lugar. E ele nos alcança de novo. Beija a Clarissa na testa, como costumava fazer comigo. Eu me desespero, com medo, medo do que ele pode fazer com ela. Comigo. Mas eu não consigo enfrentá-lo, não sei porque, sou tão pequena. Meu Deus, tão pequena! Me sinto com cinco anos de novo... E eu não consigo me mover, me sinto suja, não consigo gritar, não consigo...

Ouve-se unicamente o som dos soluços da moça. Ele supervisiona seu comportamento, por cima dos óculos  de armação fina e lentes grossas.

- Minha mãe pede que eu me acalme, ela não sabe de nada. Clarissa sorri, nos meus braços e, antes de misturar-se entre os convidados, ele beija a minha testa e sorri. Meu maior pesadelo, ele de volta na minha casa, entre a minha família. E a Clarissa... tão inocente, não sabe de nada. Não sabe que ele é o pai dela. Aquele, aquele monstro. Eu não aguento... não aguento mais!

Soluços mais altos e choro contínuo inundam a sala.

- Continue, Melissa. Esse homem é o seu ex-marido?

Silêncio.

- Melissa?

- Alencar. O nome dele é Alencar.

- Alencar é o seu ex-marido?

- Não...

- Então quem é este Alencar?

- Meu tio... Ele é o meu tio.

***

O tema escolhido pra esta atualização do projeto 1 tema, 2 ideias foi medo. E, quem acompanha o blog, sabe que já escrevi algumas crônicas sobre o assunto e decidi que, desta vez, escreveria um conto. Mas não um conto qualquer, sobre uma pessoa que sente qualquer medo. Seria um conto fictício sobre algo muito real. Quantas Melissas existem por aí? Os números assustam: 85% dos casos de estupros de menores ocorrem dentro da própria família ou por conhecidos

Em meio à essa onda desenfreada de mulheres violentadas, nos vemos frágeis e fracas, diante do perigo que até uma viagem de ônibus para o trabalho pode oferecer. O machismo tem crescido nos últimos anos aqui no Brasil e muito me entristece ver conhecidos com o pensamento neandertal de que "Mas também, olha a saia que ela estava!". Sou mulher, sou gente, sou humana e tenho o direito de usar a roupa, o cabelo, o comportamento que eu quiser, sem ser ameaçada por um animal no cio que tem - segundo a própria sociedade - a necessidade de fazer sexo comigo se eu estiver usando shorts ou batom vermelho. 

Denunciem! Não deixem este pesadelo crescer dentro de vocês. 

***
Vamos conferir o texto da Soraya? Então vem comigo!

  


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10 comentários:

  1. Demais, simplesmente.
    Embora não tenha passado por isso, me senti na pele de Melissa.
    Você tem o dom de passar sentimentos por meio da escrita.
    Beijos

    www.meumeiodevaneio.com.br

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    1. Opa, que bom que gostou, Soraya :)
      Beijobeijo

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  2. ótimo texto...apesar da triste realidade de algumas "Melissas".
    E a ideia do projeto 1 tema 2 ideias é bem legal também!!!

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    1. Valeu Thaleeeeta! É triste que haja tantas Melissas por aí, mas um dia esse cenário muda, se Deus quiser.

      Beijão

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  3. ótimo texto, apesar da triste realidade de algumas "Melissas".
    E a ideia do projeto também é muito boa!! Parabéns!!

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  4. Muito bom o texto e o tema! é preciso mesmo deixar esse tema em foco, mesmo por que muitas sofrem em silencio, com medo, não só de se expor mas de arranhar a família. Esses molestadores, são doentes, precisam de tratamento!! fico muito indignada com essas historias que chegam a te nós!!!! Simplesmente essas pessoas não podem ser chamadas de seres humanos, são monstros!!!!!!

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    1. Com certeza, Ju! Só pode ser doença, especialmente dentro da própria família. Não consigo entender...
      Beijão

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  5. Seu texto ficou ótimo Vivian, consegui imaginar perfeitamente o drama da Melissa. Infelizmente a realidade da Melissa é muito triste e bastante real.
    Me assustei muito quando vi as estatísticas da reportagem, é assustado para nós que somos mulheres, ter que viver desconfiada até do pai, do tio, de conhecidos e até do namorado.

    Essa ideia de dois textos com o mesmo assunto ficou muito boa, vou dar uma olhada no texto da Soraya ^^

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    1. Tem razão, Marina. Eu vivo desconfiada, não entro em van, odeio ônibus vazio, rua escura, sair sozinha... sou cheia das noias e não é a toa! Vivemos em um mundo tão doido e perigoso! Eu tento me regular, senão não vou nem a esquina.

      Beijão

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  6. Bem chocante o conto e bem real, infelizmente. Eu acho um absurdo como a sociedade brasileira banalizou o estupro, porque somos nós mulheres ue temso que tomar cuidado ? Não deveria ser o homem que deveria ser ensinado a respeitar as mulheres ? Que sociedade hipócrita e de mente pequena essa na qual vivemos. Eu moro em uma cidade pequena mas tenho medo de sair a qualquer hora na rua, até mesmo quando um grupo muito grande de homens se aproxima. Não deveria ser assim. As mulheres na Nova Zelandia andam pra cima e pra baixo de micro short e NINGUÉM é estuprado. É uma pena isso tudo.
    Beijos
    barradosno-baile.blogspot.com

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