1 tema, 2 ideias: Solidão

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8 Comments


A Soraya do blog Meu Meio Devaneio e eu orgulhosamente apresentamos o projeto 1 tema, 2 ideias. Como funciona? É assim: nós escolhemos um tema aleatório (ou não) e escrevemos dois textos distintos (ou não também) sobre o mesmo assunto. O interessante deste projeto é a diferença das visões de mundo ou a semelhança - isso vai se mostrando com o passar do tempo.
Essa coluna vai ao ar quinzenalmente.



***


Pra não dizer que não falei de solidão


Don't Go Away




O terceiro enfermeiro passou mais cedo no meu quarto. Todos os dias, ritualmente, três enfermeiros me visitam nos mesmos horários há dez anos.

Tenho oitenta e cinco anos. Ou oitenta e seis — não lembro muito bem. Vivo há dez na lúgubre Casa da Felicidade. Tive três filhas muito bem-apessoadas, das quais duas se mudaram para o exterior.

Ana, a caçula, morava em um bairro bastante movimentado do Rio de Janeiro e decidiu que seria médica veterinária por vocação. Supliquei para seguir a carreira de medicina, tão inteligente que é a jovem Ana, mas ela nunca concordou em ser doutora de seres humanos. Charlotte é a mais velha. Charlotte, na verdade, chama-se Marivana, mas aos vinte anos decidiu trocar de nome no cartório alegando constrangimento. Bobagem. Charlotte é muito mais feio que Marivana — nomeada em homenagem à mamãe, que faleceu na semana do seu nascimento. Charlotte vive em Paris, com um francês legítimo que conheceu pela internet, há um punhado de anos. Hannah é a minha filha do meio e, ao contrário de Marivana, adora o seu nome, embora eu mesma me arrependa de ter concordado com o hippie do pai dela. Mudou-se para Nova Jersey na esperança de tornar-se atriz de sucesso, mas tudo o que conseguiu foi fazer um cursinho de inglês e casar com um árabe rico, pai de seus dois filhos.

Faz oito anos que não vejo minhas duas filhas. Marivana, pouco antes de virar Charlotte, se mudou para um quartinho alugado no centro da cidade. Depois foi para São Paulo. Passou cinco anos sem atender sequer uma de minhas — muitas — ligações. Zangou-se com minhas opiniões ora sobre seu futuro e ora sobre seu passado. Nunca entendeu que cada conselho, cada palpite era por amor. Por medo de vê-la sofrer, dizia tudo o que meu coração mandava gritar. E Marivana sempre se sufocou com tanto amor.

Diariamente, às duas da tarde, Hannah telefonava. A cada seis meses vinha me visitar e se instalava em minha casa com o marido e as crianças. Fazíamos bolo, pudim de leite, pipoca. Assistíamos filmes à meia luz e íamos ao shopping passear.

Mas de todas, Ana era a mais apegada. Se dividia entre o abrigo de cães, o consultório e eu. Passava todos os dias para o almoço e aos finais de semana trazia uma rosa. Ai de mim se não escutasse suas muitas histórias! Seus olhos brilhantes, seu cabelo macio e o carinho no pé. Ana me mimava e eu me sentia amada, de verdade.

Tive dois maridos. O primeiro, um hippie incomensurável, me deixou pela primeira boca de sino que encontrou. Ouvi dizer que se mudou para o Peru, onde formou uma nova família com cinco filhos meninos. Meu segundo marido, meu primeiro grande amor, minha primeira grande história. Nos conhecemos em um baile de carnaval e, embora todos me dissessem que não passaria da primeira noite, vivemos uma vida longa e apaixonada. Ao sair para trabalhar deixava bilhetinhos declarando, todos os dias, o seu amor por mim. Andávamos de mãos dadas pelo calçadão olhando o mar e ele me contava histórias sobre a Lua.

Mas o câncer chegou primeiro e levou, aos poucos, minha vida para longe de mim.

No inverno de dois mil e um eu sentia muito sono. Quase não conseguia permanecer de pé. Estava com muita náusea, que durou dias e me fez perder bastante peso. Comecei esquecendo pequenas coisas, como onde deixei os óculos e para quem havia telefonado. Dores intensas na cabeça e por trás dos olhos surgiram e, quando não estava mais conseguindo raciocinar, o médico me deu a assoladora notícia de que eu estava em meio à um derrame. Poucas semanas foram suficientes para que o meu lado esquerdo inteiro me deixasse na mão. Então surgiram as dificuldades de locomoção e a necessidade de alguém para me auxiliar.

Três meses após o derrame, Marivana decidiu me mudar para a Casa da Felicidade. Hannah e Ana argumentaram, mas todas decidiram que, por hora, era o melhor para mim. O plano consistia em me deixar na Casa por seis meses, até que eu me sentisse melhor e mais forte e pudesse ter apenas uma cuidadora em horário parcial dentro de casa. Dois meses, quatro, cinco, sete meses se passaram dentro do abrigo. No dia vinte de maio o enfermeiro entrou no meu quarto, com cara de quem não queria entrar. Ficou em silêncio por alguns minutos, fingindo medir minha pressão. Quebrou o gelo fria e diretamente: "Sua filha, Ana, sofreu um acidente de carro dois dias atrás. Os médicos tentaram de tudo, mas ela não resistiu. Sinto muito".

E, assim, a minha vida acabou pela segunda vez. Vi minha vontade de viver agarrada àquele ponto final. Não sabia se era o meu coração fraco e idoso ou se o quarto estava realmente tremendo. Mais tarde, na UTI, vim a descobrir que era o meu coração. Entubada, ouvi dizer que acabara de sobreviver a um enfarto. Meu peito doía e nada tinha a ver com a parada cardíaca. Ou tinha. Meu coração parou no momento em que minha Ana foi tirada, injustamente, de mim. Meu bebê. Meu anjinho. Senti tanto a sua falta, tanta dor de vê-la partir que me entregaria, fácil, feliz, em seu lugar. Não pude ir ao enterro por conta da minha saúde debilitada. Em troca, chorei. Berrei. Agonizei em Terra, toda a dor de ser fadada, pra sempre, ao Inferno.

Hannah e Marinava me deram assistência. Me deram conforto. Me encheram de mimos e de carinho. Uma consolava a outra. Mas nada traria de volta aquela parte de mim. Eu estaria pra sempre mudada. Dois meses após a morte de Ana, as duas voltaram para suas casas. Marinava decidiu vender a velha casa, pra arcar com os gastos do funeral e do abrigo de cães. Vendeu o consultório veterinário. Dividiu o dinheiro em três partes, mas recusei a receber qualquer centavo. Decidi ficar apenas com todo o resto que pertencia a Ana — suas roupas, seu perfume, seus livros. Coisas sem valor para ninguém, mas que refletiam toda a riqueza para uma mãe que perde um filho: sua essência.

A cada seis meses elas vinham me visitar na Casa da Felicidade. O lugar é até bom: três andares, vinte quartos, vinte idosos. Espaços bastante arejados, com o Sol da manhã me saudando pessoalmente pela janela. Enfermeiros simpáticos me visitam três vezes ao dia e podemos assistir novela e jornal juntos na sala de estar. Domingo é dia de bingo e eu sou muita boa de jogo. Depois de dois anos, as visitas começaram a faltar. Muitos dos meus companheiros já se foram e todo ano novos amigos chegam, a maioria com data de validade. Gosto de imaginar quando será a minha vez. Vejo os filhos e netos dos meus colegas aos fins de semana e me pego em Paris ou em Nova Jersey. A cabeça, agora falha, vive longe. Vez ou outra me distraio com os livros que guardei da estante de Ana.

Sexta-feira é dia de banho de Sol e eu vejo a movimentação do outro lado da rua. Sábado bem cedinho, com a ajuda da enfermeira Lourdes, tomo um banho de banheira e passo um dos perfumes de Ana. Gosto de pensar que elas virão me visitar. Observo com veemência a porta de entrada, pode ser que elas tenham esquecido o número do telefone do abrigo. Cada vez que a porta se abre ou que soa a campainha, meu coração se enche de esperança. Mas eu sei, eu sei que elas não me esqueceram. Sei que lá fora, alguém — ainda que só um pouquinho — ainda se lembra de mim.


***


Vamos conferir o texto da Soraya?

Bisous





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8 comentários:

  1. Falar o que? Me emocionei demais!!!
    Que lindo seu texto!!!
    E o melhor: temos uma ideia similar de solidão, e como isso afeta tantos idosos pelo mundo afora...
    Amei, simplesmente.

    Beijos

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    1. Nós duas pensamos basicamente na mesma coisa! Legal isso, não é? Eu adoro esse projeto, rs.

      Beijão Sosô!

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  2. Gente, ler esse texto no silêncio da madrugada é doloroso demais!
    Já estou aqui debulhada em lágrimas.
    Sempre gostei dos idosos - ainda volto a da aulas pra eles um dia! - e este texto foi fundo na alma.
    Honestamente, tenho raiva de quem abandona os pais sem motivos assim. É uma ingratidão muito grande! :(

    Grande texto, que gera muita reflexão!

    Um beijo,

    http://algumasobservacoes.blogspot.com/
    http://escritoshumanos.blogspot.com/

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    1. Ai Fê, que bom que gostou!
      Fico tão feliz de ter leitoras como você *.*
      Beijo beijo!

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  3. Um belo texto, imaginei cada linha =D

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  4. Oi Vi! Conheço o blog da So!! Adorei esse projeto de vocês, vou lá ler o texto dela tb!

    Sobre o seu texto... me emocionou bastante...achei triste...que nem dá muita vontade de falar...

    Bjinhos
    Ju
    asbesteirasquemecontam.blogspot.com.br

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  5. Que texto triste! Ficou bonito mas muito triste. Eu fiquei lembrando do meu avô, ele falava muito nos filhos dele (meus tios e tias) mas só minha mãe ia lá ficar com ele.
    É muito triste quando um filho se esquece dos pais, como disse a Fernando, é uma ingratidão muito grande =/

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