1 tema, 2 ideias: Fuga

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Dezessete anos e muita história pra contar. Não a conheci pessoalmente, mas desde pequeno ouvia sobre a moça dos olhos azuis.

Era vizinha dos meus pais. Nascida e criada na redondeza, seus pais foram grandes amigos dos meus. Sempre descalça, correndo pelas ruas com um grande sorriso desdentado. Ela tinha oito anos e era a menina mais linda de todo o bairro. Seu rosto cheinho, com covinhas e furinhos na bochecha revelavam uma criança de grandes habilidades sociais. Não havia um que não elogiasse sua beleza — não é todo dia que se vê um rosto tão bonito em uma pele morena-jambo com grandes e brilhosos olhos azuis.

Registrada como Bárbara, conhecida como Barbarella — aos vinte e cinco dias para o seu aniversário de nove anos, foi chamada pelo primo para brincar na calçada da velha casa amarela. Sua mãe estava fazendo o almoço com a sua avó. O cardápio seria costela com batatas coradas, o prato favorito de Barbarella! O cheiro da comida caseira da mãe costumava a invadir as casas da vizinhança e todos eram contagiados pelo aroma delicioso que vinha da velha casa número 7. A menina esperava ansiosa pelo chamado da sua mãe.

Dona Neide estava quase terminando mais uma de suas delícias, quando pediu à sua mãe que chamasse Barbarella no portão. No breve caminho da casa ao portão, Terezinha estranhou o silêncio cheio das esquisitices: criança quieta demais, com certeza significa encrenca.

"Barbarella", gritou a avó. A menina não estava na calçada. Juninho, o primo, jogava bola com mais dois garotos da sua idade. "Onde está sua prima?", peguntou Terezinha. Juninho respondeu que não sabia. "Barbarella, Barbarella", gritava a avó preocupada. E nada da menina responder. Dona Neide, ao ouvir os gritos, foi depressa para o portão. "Onde está ela, Juninho? Não foi brincar com você?", perguntou a mãe, nervosa. "Não tia, ela veio comigo, mas os meninos me chamaram pra jogar bola e eu não vi onde ela se meteu".

O sumiço comoveu os vizinhos. Ninguém sabia onde estava a linda menina dos olhos azuis. No final do dia, todas as casas tinham sido visitadas e todos os parentes e amigos, contatados. A professora contou que não tinha notado nada de diferente na menina pela manhã e disse que estaria à disposição para qualquer coisa. Parques, clubes e pracinhas em geral, foram vasculhadas. Dona Neide não parava de gritar seu nome pelos cantos da cidade. Paradas de ônibus, padarias, hospitais. Ninguém tinha visto nenhuma menina de oito anos de pele morena e grandes olhos azuis.

Barbarella, ao sair de casa, aos vinte e cinco dias para o seu aniversário de nove anos, queria brincar de pique. Mas dois meninos logo chegaram e convidaram Juninho para brincar de bola na rua e a garota ficou sozinha. Enquanto esperava pela costela que sua mãe estava cuidadosamente preparando, Barbarella encontrou o pai da sua melhor amiga do colégio, Ana Carolina. Ele perguntou por que estava tão triste e ela respondeu que não tinha ninguém para brincar. O moço era tão gentil, sempre lhe dava carona e deixava Ana ficar até tarde na sua casa. Ele a convidou para brincar com Ana em sua casa e Barbarella nem pensou duas vezes.

Ao chegar, notou que a casa estava vazia, mas teve receio de perguntar. Sentou-se no sofá e decidiu esperar até Ana chegar. O homem nada lhe disse. Depois de vinte minutos, resolveu perguntar por Ana. O homem se desculpou e disse que tinha esquecido, mas sua filha estava na casa mãe — o casal acabara de se separar.

Barbarella se levantou para ir embora e o homem convenceu que ela deveria esperar que ele terminasse alguma tarefa importante, para então levá-la de volta para casa. Pensou no almoço que estaria perdendo e lembrou que sua mãe poderia estar preocupada. Insistiu para ir embora. O homem negou mais uma vez. Tentou abrir as portas e viu que todas as portas e janelas estavam trancadas. Começou a chorar e implorou, implorou para ir pra casa. O homem se levantou com raiva, segurou seus cabelos com força e deu estapeou seu rosto, mandando que calasse a boca. Era a última vez que Bárbara viria sua família, pensou.

Três ligações para a polícia, dois registros de sumiço, uma cidade inteira vasculhada, cento e sessenta cartazes espalhados, dois anúncios fixos no jornal e nenhuma notícia da jovem menina. Terezinha faleceu dois anos depois. Desgosto, dizem os vizinhos. Dona Neide, viúva, perdeu a sua única filha. Os policiais pararam de procurar. Constantemente Dona Neide visitava os hospitais e o IML, na esperança de ter uma notícia, qualquer uma, sobre o paradeiro da sua filha. Imaginava como estaria ela, hoje, com onze anos. Uma equipe de desenhistas da polícia fez um esboço de como estaria, se estivesse viva — desenho este que guardava em sua carteira, como um tesouro.

Cinco anos se passaram. Barbarella não sabia ao certo quanto tempo estava trancada naquele porão. Estava tão magra, tão solitária que mal conseguia raciocinar. Não havia janelas, só uma portinha que vivia trancada. Recebia as refeições três vezes ao dia. No início, se recusou a comer, mas logo desistiu da ideia de definhar de fome. Vez ou outra o homem descia para brincar com ela. Dizia que sentia falta da sua filha, se desculpava e chorava. Mas nunca deixou que saísse de lá: daquela casa, daquele porão. No seu aniversário de 14 anos, o homem deixou que subisse para assistir televisão. Seu cérebro começou a funcionar rapidamente, tentando encontrar um jeito de sair daquele lugar. Portas e janelas trancadas, revólver .38 na mão de seu novo pai, segundo as palavras do próprio homem. Sem pensar, a menina começou a gritar freneticamente, pedindo socorro, com as lágrimas como um rio, a garganta em nó. O homem não a perdoou — tomou a maior surra que já tivera. Quebrou um braço e uma costela, a boca inchada, nariz sangrando e ficou sem comer por dois dias.

Cinco de abril. Oito anos de cativeiro. Barbarella já havia perdido toda sua esperança e, ainda pior, havia perdido sua fé. O homem desceu logo cedo para o porão. Estava bêbado. Contou que era aniversário da Ana e eles iriam comemorar. Em sua mão, uma garrafa de whiskey pela metade. Na cintura, o revólver indispensável. Ordenou que a menina — agora uma moça — bebesse com ele. No começo, ela cedeu. Sentiu o gosto ardente da bebida entrando pelo seu corpo e logo entendeu que não poderia continuar naquele jogo. Perguntou por que, pediu respostas, quis saber o o motivo de ter sido levada de seus pais. "Por que eu?", perguntava a pobre menina. O homem bebia e sorria, contando suas próprias histórias. Lá pelas tantas, depois de várias doses de whiskey e cheio de álcool de cozinha, o homem começou a chorar. Disse que Ana tinha morrido em um acidente de carro, um dia antes de encontrar Barbarella na calçada da casa 7. Chorava e bebia, soluçava, sorria e pedia desculpas. Barbarella o abraçou e disse que ficaria tudo bem. O homem desabou em um choro compulsivo e, depois de duas horas, caiu no sono. Ainda com muito medo, Barbarella entendeu que chegou a hora. Estava tremendo, o coração acelerado e pensou que não teria nada mais a perder.

Se soltou, cuidadosamente, dos braços peludos do homem embriagado. Ele se mexeu e ela parou, congelada, os olhos arregalados e o coração pulsante. Seu estômago queria lhe trair, estava prestes a vomitar. Com as mãos trêmulas, agarrou o .38 da cintura do homem e mirou em sua cabeça. Ela desejou ter coragem. Quis com todas as suas forças ter coragem para acabar com aquele sofrimento. Mas desistiu. Decidiu ser rápida e fugir dali mais depressa possível. Rezou para a portinha estar aberta. Virou a maçaneta de olhos fechados, e estava aberta! Correu pelas escadas, atravessou o corredor e, na sala, já estava chorando. Tremia tanto que pensou se seria possível ouvir os barulhos do sacolejo dos seus ossos. A porta estava trancada. Pensou em voltar para pegar as chaves, mas tentou passar pela janela. A fresta era tão estreita, que nem com a sua descomunal magreza, conseguia passar. Ao virar-se, Barbarella deu de cara com o homem, de pé, na sua frente. Ele agarrou os seus braços e deu um soco no seu estômago. Ela vomitou instantaneamente, mas decidiu que sairia de lá, nem que fosse morta. Ele agarrou as suas pernas e ela se sacudia freneticamente. Lembrou da arma na sua calça. Sacou a pistola impulsivamente e ordenou que ele se afastasse.

O homem obedeceu. Ela tremia, estava muito nervosa, em estado de choque. "Seu rato! Eu te odeio, seu filho da puta. Você NUNCA, NUNCA SERÁ MEU PAI, PORRA! Tá ouvindo?". Destravou o pino de segurança. "Você vai pra cadeia, seu verme!", disse a menina se afastando lentamente da janela. "Manda a chave pra cá, seu pedaço de merda". Ele atirou a chave pelo chão. Ao se abaixar para pegar o molho, Barbarella foi surpreendida pelo homem que pulava em suas costas para arrancar-lhe a pistola.

Do lado de fora, ouviu-se o barulho de dois tiros seguidos. Os vizinhos correram para as janelas e portas. O suspense atraía os curiosos na calçada. Uma viatura da polícia que estava por perto foi acionada e logo o som da sirene era ensurdecedor. No meio daquela confusão, uma porta se abriu. Os olhos curiosos fitavam a porta aberta, esperando para ver quem sairia de lá. Os policiais estavam prontos, a multidão da pequena cidade estava em polvorosa. Da escuridão por trás da porta, via-se uma figura de mãos para o alto, saindo devagar da cena de um crime. Barbarella, aos prantos, apareceu. Suas lágrimas eram de vida, transbordavam felicidade. Estaria, enfim, livre. Lembrou do homem morto na sala da casa que viveu por oito anos. Atirara na testa do seu sequestrador.

Sua mãe desmaiou. Barbarella ajoelhou-se, em prantos. Estava pronta. Era o início de uma nova era.





divvv



Vamos ver o que a Soraya escreveu?



Quem quiser acompanhar o Coelho é só seguir:



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3 comentários:

  1. Estou alegre por encontrar blogs como o seu, ao ler algumas coisas,
    reparei que tem aqui um bom blog, feito com carinho,
    Posso dizer que gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns,
    decerto que virei aqui mais vezes.
    Sou António Batalha.
    Que lhe deseja muitas felicidade e saúde em toda a sua casa.
    PS.Se desejar visite O Peregrino E Servo, e se o desejar
    siga, mas só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.

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  2. Seu blog e muito bom Vivian sucesso pra vc e claroestou te seguindo tbm seja bem vinda acesse meus blogs ok espero por seus comentarios

    http://juniorcis.blogspot.com
    http://junior-juniorcis.blogspot.com

    grato

    junior

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  3. Cheguei no segundo paragrafo e pensei, "ai, já vem tragedia". Coitada da menina, oito anos em cativeiro! Infelizmente são coisas que realmente acontecem. Mas eu gostei do texto, principalmente porque ela se libertou no final. Ficou muito bom!

    Vou lá ver o da Soraya ^^

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