O tipo certo de garota

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bipolar - Pesquisa Google

Sempre tive um fraco por mulheres esquisitas. Certa vez, lá pelas minhas cinco primeiras primaveras, houve entre os pirralhos do jardim um sorteio de namoradas. O cálculo era certo: 7 e 7 é par. Meu nome saiu com o de Rosa Leprechaun. Chorei imediatamente após o resultado e, sob sugestões que duvidavam da minha masculinidade, forcei um namoro de duas semanas com a baixinha dos cabelos de rabo-de-cavalo. Não que Rosa Leprechaun tivesse algum defeito. Era a menina mais bonita da escola, com seus longos cabelos loiros e grandes olhos azuis — o problema estava em seu excesso de perfeição.

Aos quinze anos, estava completamente apaixonado. Meu grande primeiro amor, Maria Guilhermina — a melhor amiga da minha irmã. Era a garota mais bonita de todo o bairro, pelo menos pra mim. Depois de alguns meses sem saber como me aproximar, tornei-me seu mais novo melhor amigo. Saíamos juntos para todos os cantos, de braços dados, e eu ficava cada vez mais doido pelo seu amor. Até que tomei coragem e me declarei por inteiro, de corpo e alma. Qual foi minha surpresa ao descobrir que Maria Guilhermina também me amava?! Após apresentá-la para o resto da família, meu amor se despediu com um beijo na boca. Meu primeiro e inesquecível beijo em algo que não fosse revistas, laranjas ou minha mão. Depois vieram os comentários: Maria Guilhermina, além de linda, era vesga. Como foi que nunca reparei? Isso não fez com que eu quisesse terminar, pelo contrário, amei a moça ainda mais.

Lá pelas tantas, em uma reunião familiar, meu primo Valdinho — supostamente o palhaço da família — perguntou o que havia de errado comigo. Não entendi, embora todos na sala estivessem rindo. Sugeriu que eu procurasse um psicólogo e insinuou que haveria algum problema com alguém que dispensa as mulheres bonitas. Na frente da Marcinha Coringão, minha então namorada viciada-fanática no Corinthians. Fiquei sem ação no momento, mas saiba, Valdinho, que de mulher bonita entendo muito bem. Melhor que você. Não sou bobo; não desdenho os belos pares de seios redondos, a circunferência arrebitada de uma bela morena, a pele macia e os músculos duros de uma mulher que se cuida. Não sou doido de não cair com um belo sorriso, que te prende os olhos e apaga a razão. Tampouco discordaria de mulheres sensatas, aquelas 100% racionais e quase sempre entendedoras. Não sou louco, Valdinho, mas me orgulho de ver beleza onde ninguém se dá o trabalho de prestar atenção.

Quando Marcinha Coringão finalmente me trocou pela final do campeonato, fiquei tão arrasado que eu só queria ficar sozinho. E foi no meio desta solidão que ela apareceu. Nunca achei que pudesse amar tanto alguém quanto amei Jane Medeiros. Nos conhecemos em um show de rock e ela perguntou se eu estava sozinho. Estava com um amigo do escritório, mas sim, estava sozinho. Meia hora de conversa fiada e ela me tascou um beijo na boca. Impulsiva, Jane era a típica mulher de Lua. Gostava de aventuras. Certa vez, em uma noite quente do final de novembro, estávamos sem grana para baladas ou viagens. Ela segurou meu rosto e perguntou se eu queria me divertir. Nem cheguei a responder, e ela já estava em cima do portão do vizinho, pulando com as duas pernas rapidamente para o lado de dentro. Despiu-se por inteiro e caiu com tudo na piscina do seu Jairo, que trabalhava com longas viagens. Aquela mulher, sim, era um furacão.

Jane Medeiros era uma morena dos olhos cor de mel com muita, muita loucura para dar e vender. Era esquisita, em todos os sentidos. Quanta vida tinha aquela garota! Não dispensava um bom boteco ruim, não corria atrás do que o dinheiro pudesse comprar sem felicidade, não pensava em outra coisa senão se divertir. Fugiu de casa aos nove anos, viveu em Berlim durante a adolescência, selou o compromisso de fazer o que quer. E eu amei, com todas as minhas forças, cada esquisitice da sua vida.

Vivi com Jane por vinte e sete anos. Tivemos cinco filhos, de parto natural, em casa. Nos mudamos para o interior e espiávamos de vez em quando as cidades grandes. Juntamos dinheiro suficiente para viajarmos para todos os continentes, no total de vinte e quatro países. Não vivemos de luxo, pelo contrário, tivemos uma vida sóbria e inteiramente feliz, enquanto durou.

Sempre fui um amante das mulheres verdadeiras, daquelas que são felizes, sem pressão, sem tensão, do jeito que vieram ao mundo. Não existe pessoa certa — nem pra gente e nem pra elas mesmas. Nem alta, nem baixa, nem miss, nem monstro, sem cor, sem credo, sem medo: gente que se assume, gente de verdade, gente que não teme por ser o que é.

Sempre tive um fraco por mulheres esquisitas...





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7 comentários:

  1. VIIIIII Amei seu texto, dei risada sozinha aqui com a Maria Guilhermina... E a Marcinha Coringão!!! Quase eu!!!! hauahauahua

    Demais Vi!!! Parabéns!!

    Bjinhos
    Ju
    asbesteirasquemecontam.blogspot.com.br

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  2. ah cara eu sempre tive fraco pra pessoas esquisitas, amizades esquisitas, relacionamentos esquisitos.
    amei o texto
    Seguindo o coelho branco

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  3. Aiii, me identifiquei!! Sempre sempre gostei dos homens diferentes. Para mim, padrão de beleza é algo imposto pela sociedade.
    Aliás, quer coisa mais chata do que aquela pessoa que faz de tudo para ser perfeitinha, como os outros gostariam que ela fosse?
    Não!! Gosto é de originalidade!

    Amei o texto!!!

    Beijos

    www.meumeiodevaneio.com.br

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  4. Gostei. O que me chamou mais a atenção foi a coloquialidade (gente! é assim mesmo?!...enfim!) do texto e a apresentação desses personagens bastante originais. Alguns nuances do texto o fazem ao mesmo tempo sério, mas leve também. Muito bom.

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  5. MEDELS!!!! Me apaixonei por esse seu texto maravilhoso!!!!! *-*
    Nossa, viajei demais nele!
    Quem me dera encontrasse um cara que goste de mulher esquisita!! hahahahaha
    Parabens, nega!!!!!
    Beijinhos,
    Jennifer
    http://queridamaiscafe.com/

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  6. Adorei o texto! No começo pensei que era uma criança, por causa do "7 é par". Fiquei duas horas tentando lembrar se realmente é par, acho que preciso voltar as aulas logo O.o
    Esqueça o 7 kkkkk o texto ficou muito lindo! Me identifiquei bastante, sempre me interesso por pessoas consideradas esquisitas pelos outros :D

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  7. Ótimo texto, nos faz lembrar que não existe este esteriótipo de TV, embora a sociedade meio que pressione (ou sou a única a notar isso?). Adorei, sério.

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