O estado mais perigoso

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Via

A árvore na calçada bloqueia a luz que vem do único poste na esquina quase sempre vazia. Mas isso não foi o suficiente pra eu me apavorar. Nem o fato de ser um domingo à noite. Talvez porque o bairro e a rua de baixo estivessem completamente lotados de fãs de Arnaldo Antunes e Babado Novo. O que eu aprendi nos últimos meses é que toda estação é motivo de festa em Salvador. Seja bem-vinda, primavera!

Eu voltava do mercado, cheia de sacolas, quando aconteceu. Foi tudo rápido demais, mal consegui perceber quando o vulto saiu de trás do Toyota branco, embaixo da árvore da esquina, com a pistola apontada na minha direção.

— Dinheiro e celular — disse o rapaz de boné e camisa do Brasil. — Rápido!

Não foi pelos 2 (dois) reais que perdi (não tá fácil pra ninguém, sr bandido), nem pelo celular que mal consegui terminar de pagar. Também não foi pela violência — apesar de ele não ter gritado, não ter tocado em mim e ter ~deixado~ eu continuar com minhas sacolas e documentos — da arma que, por um passo em falso, poderia ter acabado não só com o sonho da vida melhor, mas com a minha vida. Foi por ser na esquina, a menos de 100 metros da minha casa. Por isso que, quando fechei a porta, desabei em choro e soluços. Foi por ouvi-lo conversar embaixo da minha janela que me senti violada, agredida, espancada, sem mesmo um fio do meu cabelo ter sido tocado. 

— Na hora do aperto, todo mundo quer vingança — ouvi alguém tentar me confortar.

No meu choro tinha ódio, sim. Mas, não, caro conselheiro, eu não queria vingança. O que quero vai além do outro, vai além de mim ou do meu celular. O que quero não depende só de mim, nem daquilo que me tornaria tão criminosa quanto o cara que levou meus dois reais. Na hora do aperto, eu quero solução e não paliativos. Quero não só a punição do Estado, mas medidas pra que ele não precise punir. Quero educação. Quero mais justiça e menos justiceiros. Quero oportunidades e investimentos nos lugares carentes, esquecidos pelo governo e pela sociedade que se faz de cega. Quero um olhar reparador. Medidas socioeducativas que diminuam a reincidência. Quero não precisar ter medo de sair de casa, quero não ter que controlar o horário ou a posição do sol no céu pra acreditar que estou segura. O perigo não depende unicamente do outro. O estado mais perigoso é o alimentado pela negligência.





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4 comentários:

  1. Vivian, não acredito que você voltou! E que layout lindo esse ein? Muito clean, adorei. Tava pensando em mudar o meu mas to sem tempo rsrs'

    "o cara que levou meus dois reais." ri disso viu. Também acho que tem que investir mais em educação, em medidas socio educativas, no lugar de fazer mais cadeias, de colocar policiais, etc. e tal, que é o que eu vejo o povo defendendo (e é o que acontece, porque gasta menos e dá menos trabalho).

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  2. Oiê Vivian!

    Apesar de trágico, muito bom o seu relato. Vc escreve muito bem! Acho que já disse isso, mas não custa reforçar, haha. Quero só deixar passar essa semana de provas para ler todos os textos daqui. =)

    A respeito do post..Cara, concordo muito contigo! Em todos os sentidos.

    Eu enxergo que o pior do fato não é o ato de você ser roubada ou da própria criminalidade, mas sim a proximidade que a gente tem disso. Aliás, não somente a proximidade física (a questão de terem te roubado perto da sua casa), mas a aspecto da sociedade como um todo nisso. A violência esta aí, fruto inerente da desigualdade social e de raça. A gente é próximo dessa realidade, sofre e está sujeito à isso todos os dias. Mas o Estado e o poder nada colaboram para a mudança dessas realidades. Assim, não se trata somente de um roubo, mas de uma REALIDADE REFLETIDA nesse ato do roubo. E o mais triste é o fato da gente, enquanto indivíduo, não poder mudar isso e se sentir desemparados, violados e ao mesmo tempo aflito com essa realidade que nos cerca.

    Muito legal o teu post!

    Beijo
    Mari
    www.galeriadasideias.com.br

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  3. Oi, Vi.
    Meu pai foi assaltado em frente à minha casa, então entendo perfeitamente o seu sentimento, a sua raiva e, sobretudo, este misto de indignação e impotência que sentimos por termos um Estado (e uma sociedade civil) omisso(s) a este panorama.

    É complicado. Muito complicado.
    É complicado saber que ainda há falta de direitos básicos, é complicada a desigualdade que assola o país, é complicada a falta de infraestrutura, até mesmo a falta de solidariedade e de amor.
    Eu não sei se já te contei, mas fui orientadora socioeducativa de adolescentes em PSC e LA. Eu via o outro lado da história (tanto de quem queria sair desta vida, como de quem não estava nem aí e queria continuar nela). Sempre que me deparo com uma situação assim, penso em tudo o que ouvi durante esta época e em todos os lares que visitei e não consigo sentir o ódio do "olho por olho e dente por dente", por isso, te entendo.

    Fico feliz que tenham levado o dinheiro e o celular apenas. Ter você inteira é o principal.

    Beijos,

    www.algumasobservacoes.com

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