O futuro é o inferno (ou A popularização da distopia)

quarta-feira, setembro 09, 2015 Vivian Loreti 10 Comments



Curiosa a definição de inferno: 

Extremo sofrimento infligido por certas circunstâncias, sentimentos ou pessoa(s); martírio, tormento.

E é justamente este o nosso futuro, segundo a distopia. Diferentemente da sua prima utopia, cuja característica principal se baseia na fantasia e idealização de lugar ou estado em perfeita harmonia sociopolítica, a distopia é o lugar ou estado de opressão, privação e provação.




Apesar do boom distópico estar batendo nas nossas portas há pelo menos três anos, o gênero não é nada novo. Quem nunca ouviu falar do clássico 1984, publicado em 1949 por George Orwell, ou de Neuromancer, de William Gibson publicado em 1984? A primeira obra do gênero vivida por um adolescente foi escrita por Lois Lowry no muito foda maravilhoso (sim, sou super fã da autora) O Doador, de 1993. Daí até o lançamento de Jogos Vorazes de Suzanne Collins, foi um pulo não só na década, mas na forma como o público YA (young adults) passou a enxergar — e consumir  as distopias.



Então por que hoje os jovens estão mais interessados nas distopias?

Tudo começa com uma análise crítica da sociedade. O ponto de partida é justamente a realidade como a conhecemos para então, juntos, refletirmos o diagnóstico do presente desde a ética, a liberdade, o consumo etc. O elemento social faz parte do gênero e é explorado na tentativa de mostrar o lado assustador de um futuro de extremos. 

A crítica, neste caso, pode ser social (A Seleção, Divergente), ambiental (Mad Max, The 100, Silo), política (1984, Fahrenheit 451), tecnológica (Matrix, Revolution), pandêmica (12 macacos) ou todas elas e de tudo um pouco. O importante é problematizar a realidade e levantar a centelha que, na medida certa, alerta e previne para o pior: o que aconteceu com o mundo? De quem foi a culpa? Tem solução? 

Se o leitor não se sentir inquieto, então a mensagem não foi entregue como deveria. O dever da distopia é incomodar. Causar aquele negócio esquisito no peito, um incômodo que carece de reflexão — ela precisa do pensamento crítico, já que seu objetivo é alertar sobre o futuro, não aceitá-lo.

É uma imagem do futuro, surgida da compreensão profunda do presente. (Horkheimer)

As distopias têm mirado no público YA, é verdade. Só Jogos Vorazes vendeu mais de meio milhão de cópias no Brasil e Maze Runner, 3 milhões em todo o mundo. O motivo de tanto sucesso é simples: além da qualidade das obras, a capacidade de reflexão e empatia dos jovens — que estão, na maioria, em processo de identificação de personalidade e amadurecimento da compreensão de identidade e do mundo — é posta em teste com a problematização de um futuro não tão improvável causado por um presente questionável. 

O gênero traz à tona a esperança de ser responsável pela mudança, a faísca que faltava para os oprimidos. Se o inferno é iminente, o que fazer para inverter o prejuízo? E então o leitor se dá conta de algo tão excitante quanto simples: a saída do inferno está na coragem, na superação e na urgência de não ser apenas mais um espectador. 

Literatura distópica é muito mais que só uma obra de ficção, é também um convite para a análise de solução de problemas. 

A mais importante lição do gênero fica intrínseca em cada página: a revolução, distópica ou não, só depende de nós.




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10 comentários:

  1. Vivi, adorei o post! Realmente, a distopia vem crescendo e eu adoro essa ideia.
    Tudo bem que prefiro as mais voltadas para o público adulto (como vários dos clássicos que vc citou), mas não deixei de adorar Jogos Vorazes, por exemplo.
    Acho que é uma forma de crítica implícita, muito natural na sociedade em que vivemos.

    Beijos

    Meu Meio Devaneio

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    1. Eu também adoro essa ideia, Soso. Acho que é importante sim problematizar o presente, e tem forma melhor de fazer isso do que lendo? rsrs Eu também prefiro alguns clássicos.

      Beijo!

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  2. Vivian, muito bacana o seu texto sobre a distopia. Confesso que também me atraio bastante por este tema. E concordo plenamente a intenção é discutir estas realidades e não aceitá-las e por isso tantas obras deste gênero tem feito sucesso, optando pela qualidade da abordagem. Vou continuar vendo o teu blog e comentando. Gostei muito.

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    1. Ah, fico feliz que tenha gostado, Emerson :)

      Beijão!

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  3. Que post mais massa! Nunca tinha parado para pensar o porquê da distopia ser hoje tão venerada. Porém, creio que mesmo a distopia e utopia serem de fato diferentes, a primeira tem um pouca da segunda na medida em que busca uma solução. Pelo menos em relação as literaturas jovens atuais, como Jogos Vorazes por exemplo, o fim sempre se direciona para a resolução com certa pitada de otimismo motivada pela responsabilidade/coragem dos personagens, fator esse que enxergo "utópico". Só os caminhos que a distopia toma que são outros.

    Muito legal conhecer seu blog, gostei muito dele!

    Beijão,
    Mari
    http://galeriadasideias.blogspot.com.br/

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    1. Cara, você me lembrou agora de um artigo que li em algum lugar que falava que toda distopia tem sua utopia, já que um mundo melhor é idealizado e que, quase sempre, a luta é em busca desse lugar ou momento utópico! Que legal esse seu entendimento, fiquei muito feliz por ter mencionado :)))

      Beijão!

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  4. Gostei muito do seu texto, mas não gosto muito de ler distopias, prefiro leituras mais leves.
    Beijos
    Bluebell Bee

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    1. Obrigada Bianca!

      Leituras mais leves também sempre são bem-vindas :)

      Beijão

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  5. Amei seu texto! Concordo totalmente com o fato das distopias estarem crescendo... Adoro esse tipo de leitura, pois gosto de refletir sobre aquilo que li, mesmo que perturbe um pouco me tirando o sono hahaha
    Beijos
    www.somosvisiveiseinfinitos.com.br

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    1. Hahaha me tira o sono também! Geralmente leio à noite, então fico pensando naquilo na cama, a cabeça cheia de ideias hahaha

      Beijão

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