MEC, não consegui ficar fora dessa

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O lema "Não passarão!" nunca fez tanto sentido como ontem, 25 de outubro, segundo dia de provas do Enem. 

Com o tema "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira", aproximadamente 7 milhões de pessoas pensaram, pelo menos ontem, sobre um dos assuntos mais regados de hipocrisia e negligência do país. 

Eu, que não participei do Enem, fiquei frustrada por não ter conseguido dar a minha opinião desta vez. Então, MEC, fica aqui a minha redação como um registro da minha felicidade por abordarmos um tópico tão mal interpretado por alguns e, infelizmente, mal visto por outros.

E não me importa que o feminismo entre na moda, como afirmam por aí. Me importa é que a misoginia cresça, cada vez mais, apadrinhada pela ignorância ou pela falta de caráter.

Em cada 10 mulheres no mundo, 7 já foram ou serão violentadas, segundo a ONU. Os "crimes de honra" — por algum membro familiar por motivações como gravidez ou adultério, por exemplo — são a causa de 5 mil assassinatos de mulheres por ano. No Brasil, a cada 10 minutos, uma mulher é vítima de estupro. Só na última década, mais de 43 mil foram assassinadas.



Com a implementação da lei Maria da Penha, em 2006, a violência contra mulheres teve uma breve queda, voltando a subir nos anos seguintes, mostrando que nem mesmo a perspectiva da lei tem influência sobre os agressores.

O que são estes números senão a prova de que precisamos falar sobre violência?



Engana-se quem pensa que violência só se enquadra como agressão física. Abuso verbal, psicológico, institucional e moral são peças-chave que, muitas vezes, passam despercebidas por nós, porque somos treinadas para aceitar certos desaforos como besteiras. Chega! Ser humilhada não é besteira. Ser levada a acreditar que você não é ninguém sem x companheirx não é besteira. Dificultar métodos contraceptivos ou atendimento às vítimas de estupro não é e nem pode ser besteira. Vazar fotos íntimas NÃO é besteira. Quanto mais rápido entendermos isso, mais eficaz será a nossa luta.


Muita gente acredita que a internet é uma terra sem lei. Permitimos condutas criminosas todos os dias, com ou sem querer, com a mentalidade quase inocente de que que mal há?estima-se que, em todo o mundo, 73% das mulheres conectadas já sofreram violência online. 

"Mas isso não existe", eles dizem. Não? E aquela nude da filha do ator global que você passou no grupo do whatsapp? E aquela foto da filha do pastor transando que você compartilhou? Lembra da atriz de Hollywood pelada? 

Aí entra a culpabilização da vítima: "O cara que vazou até tá errado, mas quem mandou deixar tirar foto pelada?". Co-responsabilizamos sem medo as vítimas de violência, acreditando que se tivessem agido de outra forma, não seriam abusadas. Era uma saia curta demais. Fotos demais. Álcool demais. Falou demais. Existiu demais. 

Veja bem: não é a atitude criminosa — estupro, agressão física, vazamento de conteúdo íntimo — que é condenada. É a vestimenta, atitude ou liberdade sexual da vítima que é digna de punição. Trata-se, segundo a psicologia, da pseudo-moralidade por trás da falácia do mundo justo: coisas ruins acontecem com pessoas ruins. Não se engane, a justificativa co-responsabilizadora é ainda mais cruel que o próprio crime.




"Pra quê feminismo? Que violência?", eles continuam dizendo. "Isso é besteira". É mesmo? Vamos dar uma olhadinha na matéria do G1 sobre a redação do Enem 2015.






Em um país onde se acredita que a igualdade de direitos é "deturpação dos valores morais", e que 49 pessoas curtem a afirmação que "a mulher apanha do marido porque é burra e gosta de apanhar", o feminismo é SIM uma ferramenta importante no processo de identificação de opinião e ainda mais importante para a garantia de existência daquelas que sofrem e ainda levam a culpa. É o gatilho que faltava na discussão de um mundo melhor.

Um assunto como violência NÃO PODE ser tratado como mero desacordo político, como um diferencial da esquerda em relação à direita. Estamos falando de uma existência digna para seres humanos. Ou a vida perdeu totalmente o seu valor ou andamos com sérios problemas de interpretação de texto. Não use sua preferência política como desculpa para misoginia. Essa é uma luta de todos.

Todos podemos ser colaboracionistas da violência. Hoje é o momento exato em que podemos fazer a diferença.

Que dia, senhoras e senhores, que dia!




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5 comentários:

  1. Viviam, você tiraria nota máxima na redação, garanto.
    Muito muito muito bom o seu texto!
    Eu não sabia de tantos dados desse.
    Esse assunto anda me deixando feliz e revoltada. Feliz porque cada vez mais as mulheres estão falando sobre isso, abrindo o jogo, e triste de ver que o povo, homens principalmente, falam o que querem na internet, no Twitter, colocam a cara a tapa. Dá medo ver isso.
    :(

    Beijoooos

    www.casosacasoselivros.com

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  2. Arraaaasoooouu! Disse tudo, faço minhas suas palavras!!!

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  3. Não tenho nem o que complementar ao seu texto, apenas falar que vc disse absolutamente TUDOOOOOOO! Sério, parabéns!
    Beijos
    www.somosvisiveiseinfinitos.com.br

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  4. Caramba, Vivi... Sem palavras, sério.
    Acabo de ler seu texto e ficar boquiaberta com as verdades que você escancarou. A sociedade é hipócrita, essa é a verdade. Não sei nem o que comentar com medo de fazer feio hahaha

    Beijos

    Meu Meio Devaneio

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  5. Vivian ia faltar linhas na redação para você!! Fiquei tão feliz de ver o tema ser debatido na redação, mas tão triste com o que as pessoas falaram sobre isso. Fiz o ENEM esse ano junto com alguns amigos e familiares, e a vontade que tive depois disso foi ir morar numa ilha deserta, sem contato com as pessoas, principalmente as que eu "conhecia". O pior é tudo foi ouvir de parentes próximos coisas como esses comentários do G1, sendo dirigidos para mim. Às vezes me dá vontade de perguntar, não sei o que você pense que é esse "bicho mulher", porque você fala comigo como se eu não fosse uma. Uma pena que na hora da discussão a gente acaba sem argumentos, tamanho o espanto.

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